Vamos Falar de Política?

Com a aproximação das eleições majoritárias para presidente em nosso país, o assunto política entra na pauta dos brasileiros, seja no trabalho, no almoço de família ou na padaria, além também das redes sociais.

Por ser o voto consciente de total importância para o aprimoramento da democracia, o Rotaract, por ser o maior programa de jovens do mundo, deve ter essa preocupação.

Por isso, a Rotaract Brasil, conversou com um especialista no assunto, de forma apartidária, mas com o intuito de incentivar o voto consciente.

Nossa entrevista é com o Professor de Direito e Ciência Política, Olavo Caiuby Bernardes, que é advogado formado pela PUC/SP, e Mestre em Ciência Política pela Universidade Federal do Pará, além de ter LLM/especialista em Direito Internacional pela University of Miami, dos Estados Unidos.

Com ele, nós batemos um papo sobre o atual cenário político brasileiro e o que esperar dessas tão importantes eleições.

Confira:

– Essas eleições de 2018 estão sendo consideradas por muitos como a a mais importante desde a redemocratização no nosso país, o senhor concorda?

Bom, existe claramente uma questão de polarização pelo qual o país passa, existe também uma questão relacionada a legitimidade dessas eleições visto que há a ausência de um candidato bastante importante, queira ou não queira, então essas eleições, pode-se considerar, que será a eleição que busca a consolidação da democracia.

Porém essas eleições possuem aspectos interessantes comparado a outras. Como se sabe, em 1989, votou-se para presidente da república pela primeira vez em 29 anos, e, depois de 29 anos sem eleições, todos os recém-criados partidos políticos resolveram lançar candidaturas próprias, então houve muita pouca coalizão entre os partidos, tanto é que em 1989, houve 22 candidatos à presidência da república.

Em 1994, os partidos começam a se juntar em coligações, diminuindo o número de candidatos, e criando os blocos ideológicos de direita, esquerda ou centro, que mais ou menos de forma relativamente inalterada, permanecem no cenário político atual, tanto na esfera federal, estadual, quanto municipal.

O que torna interessante essa eleição, é o fato de que como em 1989, não foram feitas tantas coligações, são 13 candidaturas, tornando então as eleições presidenciais não só polarizadas, mas também bastante fragmentadas.

– Dada a importância da eleição deste ano, para o senhor, o voto consciente da sociedade brasileira se tornou ainda mais necessário? E o que é o voto consciente?

Existe, primeiramente, aquela ideia, um certo preconceito antigo, de que “brasileiro não sabe votar”, mas eu gosto bastante de uma frase de um político brasileiro, que foi governador do estado de São Paulo, Mário Covas, de que “não é que o eleitor não saiba votar, ele na verdade, é mal informado”.

Porém o fato de você ter informações, não quer dizer que você vai votar no candidato que é o mais transparente, muitas vezes você considera um candidato que mais defende de forma eficiente seus interesses (a chamada teoria do voto, ou escolha racional, tratada por Anthony Downs), mesmo ele sendo, aquele famoso candidato que consegue fazer de forma desonesta, o “rouba, mas faz”, que é um problema ainda cultural do eleitorado brasileiro.

O que se percebe, fazendo um comparativo com o que aconteceu na Itália na década de 90, é que o sistema político tradicional no Brasil foi aniquilado pelas investigações da Operação Lava Jato, e se você comparar com o que ocorreu na Itália com a Operação Mãos Limpas, foi que se investigou todos os partidos, independentemente da ideologia, revelando que no final, todos se juntavam para práticas criminosas, o que gerou uma destruição do sistema político italiano. E o que se indaga, é que se com a Lava Jato, em curso, vai gerar a destruição do sistema tradicional político brasileiro, ou se ele se manterá.

E com isso, não sabemos como vai terminar, mas, nós vemos uma fragmentação do voto e uma tentativa da população em conhecer propostas, para escolher o que melhor lhes representem, seja um candidato da nova política, um candidato outsider, ou um candidato da política tradicional.

– Ao que o senhor atribuí esse desinteresse pela política da nossa sociedade?

Eu acho que na verdade isso vem de muito tempo, desde a construção do sistema político brasileiro, nós temos um sistema que foi imposto de cima para baixo e não de baixo para cima, e muitas vezes quando a população veio a se manifestar, em geral, ou quase sempre, os políticos votaram contra o que a população queria.

Por exemplo, em 1984, houve manifestações bastante significativas, que foram as “Diretas Já”, em que se teve diversas vezes manifestações nas principais capitais do país, solicitando o voto direto para presidente, e o Congresso Nacional quando teve a oportunidade, votou contra e recusou a Emenda Dante de Oliveira, que estabelecia eleições diretas já para aquelas eleições.

Então me parece que no Congresso, os políticos estão interessados em apenas uma coisa: continuar no poder. Todo mundo sabe que a população está insatisfeita com os gastos com os políticos, insatisfeita com os mesmos caciques políticos, então grande parte da população, sente que os políticos tomam decisões que não os representam, votam basicamente por obrigação, já que o voto no Brasil é um direito e um dever.

– O Rotaract é um programa ligado a jovens, para o senhor, qual a importância da juventude em um processo eleitoral?

Olha, eu acredito que a juventude tem um papel fundamental em se envolver politicamente.

Eu falei das Diretas Já, vou confessar, não sou tão velho, tenho 34 anos, e em 2004, quando eu tinha 20 anos, um amigo me convidou para dar uma entrevista em um jornal, sobre os 20 anos das Diretas Já. E eles chamaram diversos jovens de diferentes classes sociais, e desde aquela época, já se via que os jovens não tinham interesse na política, que eram desmotivados, que não tinham interesse nos assuntos do país, então esse papo não é novo.

Mas o que eu vejo é um interesse maior da juventude na política hoje, do que havia há 15 anos, e isso se deve muito às redes sociais. Elas mudaram muito a dinâmica da política, não só no Brasil, quanto no mundo. Um caso a ser visto, é o do Barack Obama, nos Estados Unidos, que foi eleito à presidência em 2008, sem nenhum centavo de fundo partidário, o chamado Super PAC. As maiores doações foram da juventude americana, lembrando que a votação nos Estados Unidos não é obrigatória.

Então o jovem precisa ser mobilizado, e precisa ter um candidato que acredite no seu potencial, que saiba dialogar com a juventude e que saiba utilizar os novos meios e canais, mas o que eu vejo, honestamente, pelo menos no contexto do Brasil, é o jovem mais interessado em política, em relação à quando eu era adolescente.

– Nas mídias sociais, nós estamos acompanhando uma grande polarização entre Direita e Esquerda, para o senhor, a que ela se deve?

Eu acho que, mundialmente esta polarização está ocorrendo, e isso se deve a uma descrença generalizada na política tradicional e o surgimento de “anticandidatos”, ou “antipolíticos”, dentro do cenário global. Porém mundialmente não vejo uma polarização mais entre direita e esquerda, acho que é uma polarização meio ultrapassada, nós aqui no Brasil ficamos presos ao século XX com essa discussão.

Ao redor do mundo hoje a discussão que se faz é entre nacionalistas e globalistas, que são os que defendem, de um lado, fronteiras fortes, protecionismo comercial, moeda única, defesa do idioma, e do outro lado, os que são abertos a uma ideia de aldeia global, de livre circulação de pessoas, de livre mercado, de conceitos como cidadania universal, então esta é uma polarização maior lá fora.

No Brasil, essa polarização “direita e esquerda” foi fomentada, muito de forma artificial, creio eu, por dois blocos supostamente antagônicos que ocupam o cenário nacional, desde as eleições presidenciais de 1994. Fatos recentes, como o impeachment por crimes de responsabilidade que passou uma presidente democraticamente eleita, para alguns um processo legítimo, para outros ilegítimo, naturalmente ajudam a fomentar essa aparente divisão.

E é claro, as redes sociais ajudam a criar essa polarização, as pessoas têm uma propensão a criar uma bolha ideológica muito maior, a só ter amigos que tem as mesmas ideias das suas, a ler livros e textos que compartilham com as suas ideias, as próprias redes sociais têm algoritmos dos quais se você tiver uma determinada tendência ideológica, apenas artigos daquela tendência vão aparecer na sua timeline, então as pessoas acabam sendo retroalimentadas pelas suas próprias verdades.

Mas como eu disse, no resto do mundo esta discussão já é ultrapassada, e a Lava Jato nos mostrou, que tanto a esquerda, quanto a direita, quando são para se autoproteger, fazem as mesmas coisas, como o apoio de todos os grandes partidos, ao recém-criado fundo eleitoral, para preencher a ausência de recursos a campanhas políticas, devido à decisão do STF em 2016, em proibir o financiamento de campanhas políticas por empresas.

– Falando das redes sociais, o senhor acha que elas terão uma influência muito grande nas eleições deste ano?

Existe muito debate sobre isso.

A discussão que pode se fazer é até qual ponto as redes sociais influenciam nas eleições, no Brasil, que, apesar dos avanços, grande parte da população ainda não tem acesso à internet, por isso, dependendo do cenário, acredito que não. No entanto, em outros aspectos, acredito que sim, pois, os formadores de opinião, a chamada classe média, possui acesso à internet, e eles acabam influenciando bastante no voto no final. Por isso, reitero que existe muito debate, sobre a influência real da internet e redes sociais nas eleições e confesso que não tenho uma opinião conclusiva sobre o assunto.

– Por fim, o senhor como entendedor do assunto, para o senhor, há razões para sermos otimistas?

Olha, eu acredito que o otimismo por otimismo é tolice.

Eu vejo que, houve sim, evoluções em nosso sistema, mas ainda existe muita tentativa da classe política de se autoproteger, e eu vejo isso na questão do foro privilegiado, e nos citados fundo partidário e fundo eleitoral.

Mas eu acho que ainda falta uma classe política realmente com interesses concretos pelo país, e não apenas voltada para si, e a discussão é de como criar essa classe política, se é apenas pela maior conscientização do eleitor, ou se é através de pessoas que tenham interesse da política (e ai entra a juventude), em participar da política, participar do processo eleitoral. Algo tem de ser discutido: temos muitas vezes na política pessoas que não são as melhores pessoas, não são os mais preparados, ou que não se deram bem na iniciativa privada, que migram para a política.

Então, a grande questão é de haver uma grande conscientização da sociedade, e ela participar do processo, com debates, com ideias, pessoas que tenham algo a oferecer participar do processo eleitoral, nós teremos uma gradativa melhora.

Nesse sentido, com as evoluções que tivemos, acredito que possamos sim ter motivos para ser otimistas.

Conteúdo Produzido por Thiago Tertuliano | Gestor de Conteúdo da Rotaract Brasil

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